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ED 048
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A tarifa do limite que você nunca usou

Um cheque especial de R$ 5.000 parado pode render ao banco R$ 11,25 por mês em tarifa, sem um real sacado.

Talão de cheques fechado sobre um extrato bancário impresso, ao lado de um celular apagado.

O limite parado sobre o extrato do mês

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A Resolução 4.765 do Conselho Monetário Nacional (CMN, o colegiado que dita as regras dos bancos), de novembro de 2019, autorizou os bancos a cobrar 0,25% ao mês sobre a parte do limite de cheque especial acima de R$ 500, mesmo sem o cliente gastar um centavo dele. Em abril de 2020, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, suspendeu essa cobrança numa liminar (decisão provisória) na ADI 6407 (Ação Direta de Inconstitucionalidade, o processo que questiona uma norma no Supremo).

A tarifa trouxe uma novidade rara no crédito brasileiro: ela cobra pelo dinheiro que fica parado. O cliente não sacou, não pagou boleto no vermelho, não deixou a conta negativa. Basta o limite aparecer disponível no aplicativo.

O argumento dos bancos foi o custo da reserva. Todo limite aprovado ocupa capital que a instituição precisa separar pelas regras de Basileia (o acordo internacional que obriga os bancos a guardar colchão contra perdas), mesmo quando o cliente nunca encosta nele.

Os primeiros R$ 500 de limite ficaram isentos. Acima deles, a conta é direta: 0,25% ao mês sobre o excedente. Um limite de R$ 5.000, oferecido sem pedido em muitas contas correntes, deixa R$ 4.500 expostos à tarifa.

A resolução criou também uma compensação. Se o cliente usar o cheque especial num mês, o valor da tarifa sai de dentro do juro cobrado naquele mês, e a cobrança dupla fica vedada. Quem nunca usa o limite é justamente quem pagaria a tarifa cheia.

A liminar de 2020 mandou os bancos pararem de cobrar, e a cobrança segue suspensa desde então. Mesmo assim, a conta vale ser feita: ela mostra quanto um limite parado pesaria no bolso e ajuda a reconhecer a linha se ela surgir no extrato com outro rótulo.

A seção I põe os limites mais comuns em fila, do que não paga nada ao que paga mais, com a tarifa mensal de cada faixa.

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I  Ranking do Juro

Cinco limites em fila

A Resolução 4.765 calcula a tarifa só sobre a parte do limite que passa de R$ 500. Por essa conta, a cobrança mensal de cada limite fica assim, do mais barato ao mais caro:

Limite de R$ 500R$ 0,00 por mês
Limite de R$ 1.000R$ 1,25 por mês
Limite de R$ 2.000R$ 3,75 por mês
Limite de R$ 5.000R$ 11,25 por mês
Limite de R$ 10.000R$ 23,75 por mês

A escada cresce em linha reta. Cada R$ 1.000 de limite acima da franquia soma R$ 2,50 por mês à conta, e a resolução não fixou valor máximo em reais para a tarifa.

A franquia de R$ 500 foi desenhada para o cliente de renda baixa, que usa o cheque especial como colchão curto antes do salário. Quem tem limite pequeno fica fora da tarifa; quem recebeu limite alto sem pedir entra nela.

O limite alto costuma vir pronto. O banco calcula a oferta pela renda que passa na conta e pelo histórico no cadastro positivo (o banco de dados que registra os pagamentos em dia), e libera o valor na abertura da conta ou num aumento automático.

Num exemplo montado para esta edição, um cliente com salário de R$ 4.000 depositado na conta recebe limite de R$ 5.000 sem ter pedido. O aplicativo passa a mostrar R$ 9.000 disponíveis para quem tem R$ 4.000 de fato.

Limite de R$ 500 paga zero. Limite de R$ 5.000 paga R$ 11,25 por mês, sem um real sacado.

O cartão de crédito cobra anuidade pelo plástico, mas o limite dele não gera tarifa proporcional ao valor aprovado. No cheque especial, a regra de 2019 inverteu a lógica: quanto maior a oferta do banco, maior a cobrança.

A tarifa também incide sobre a disponibilidade, o termo técnico para o limite que está à disposição do cliente. Ela não depende de saldo negativo, de atraso ou de uso: depende só do valor aprovado na tela.

A compensação com o juro muda a fila para quem usa o limite. Um cliente que fica negativo todo mês já paga juro, e a tarifa sai de dentro dele; para esse cliente, o custo extra da tarifa cai a zero.

O ranking pesa, então, sobre o cliente disciplinado, que mantém o saldo positivo e deixa o limite como seguro. Ele ocupa o topo da fila de quem pagaria a tarifa cheia, e a seção II converte essa posição em reais.

 
 

II  Juro em reais

R$ 675 em cinco anos de limite parado

A conta usa o limite de R$ 5.000, a franquia de R$ 500 e a alíquota de 0,25% ao mês da Resolução 4.765. O excedente sujeito à tarifa fica em R$ 4.500.

Por mês, a tarifa chega a R$ 11,25. Em 12 meses, soma R$ 135. Em cinco anos de conta aberta, com o limite intocado, alcança R$ 675.

Em dez anos, a soma dobra para R$ 1.350, valor maior que um quarto do limite que nunca saiu da conta.

Os R$ 675 sairiam da conta corrente sem nenhum crédito usado em troca. O cliente não tomou empréstimo, não atrasou fatura, não ficou no vermelho em nenhum dia do período.

A tarifa ainda se somaria a outras cobranças da conta. Num exemplo montado para esta edição, uma conta com pacote de serviços de R$ 30 por mês e limite de R$ 5.000 passaria a custar R$ 41,25 mensais, com a linha nova espremida entre as outras do extrato.

"É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras práticas abusivas: enviar ou entregar ao consumidor, sem solicitação prévia, qualquer produto, ou fornecer qualquer serviço."

Código de Defesa do Consumidor, Lei 8.078, artigo 39, inciso III, 1990

O limite oferecido sem pedido esbarra nesse artigo. Quando o banco libera um valor que o cliente não solicitou e cobra pela disponibilidade dele, a cobrança fica exposta à contestação no Procon e no Banco Central.

R$ 11,25 por mês, R$ 135 por ano e R$ 675 em cinco anos, pelo limite de R$ 5.000 que ficou parado.

A compensação com o juro muda a conta num mês de uso. Se o cliente fica R$ 300 negativo por alguns dias e o juro do período soma R$ 20, os R$ 11,25 da tarifa saem desses R$ 20, e a cobrança final do mês fica em R$ 20.

Num mês em que o juro fique abaixo da tarifa, o cliente paga a tarifa inteira, e o juro desaparece dentro dela. Pela resolução, o custo mínimo de manter um limite de R$ 5.000 ficaria em R$ 11,25 por mês, use ou não use.

Desde a liminar de 2020 no Supremo, a cobrança está suspensa. Se a linha aparecer no extrato como tarifa de disponibilização de limite, o cliente tem a decisão do STF e o artigo 39 do Código de Defesa do Consumidor para pedir o estorno (a devolução do valor cobrado).

A seção III mostra como tirar o limite ocioso da conta pelo aplicativo.

 

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III  Porta de Saída

Quatro toques para encolher o limite

Baixar o limite resolve a tarifa e ainda tira da tela um crédito caro que aparece somado ao saldo disponível. Nos aplicativos dos bancos grandes, o ajuste costuma ficar no menu do cheque especial ou na área de limites da conta.

1. Abra o aplicativo do banco e procure a área de cheque especial, que alguns bancos chamam de limite da conta. Veja o valor aprovado e confira se ele aparece somado ao saldo na tela inicial.

2. Escolha a opção de alterar ou reduzir o limite e digite R$ 500 ou menos. Nesse valor, a franquia da Resolução 4.765 cobre o limite inteiro e a tarifa fica em zero.

3. Se o aplicativo não oferecer a redução, faça a solicitação no SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor, o canal telefônico obrigatório do banco) e anote o protocolo. Sem solução, a ouvidoria do banco tem dez dias úteis para responder, pela Resolução 4.860 do CMN, de 2020.

4. Confira os extratos dos últimos 12 meses atrás de tarifa ligada ao limite. Se ela aparecer, peça o estorno no SAC e, sem acordo, registre reclamação no site do Banco Central, no serviço Registrar reclamação.

Antes de confirmar a redução, confira se há débito automático agendado contando com o limite. Com o limite menor, a conta de luz ou a fatura do cartão pode voltar sem pagamento se o saldo não cobrir o valor no vencimento.

"Você manteria um limite de R$ 5.000 se ele aparecesse no extrato como R$ 135 por ano?"

O limite de R$ 500 ainda cobre imprevisto pequeno, como um débito automático que cai um dia antes do salário. Para emergência maior, uma reserva em conta remunerada cumpre o papel do limite sem cobrar juro nem tarifa.

Quem usa o cheque especial com frequência tem outra saída. Pela Resolução 4.549 do CMN, de 2017, o banco precisa oferecer parcelamento com juro menor ao cliente que usa mais de 15% do limite por 30 dias seguidos.

Reduzir o limite não gera dívida nem atraso no cadastro positivo. O pagamento em dia das outras contas segue registrado como antes, e o limite pode voltar a subir por solicitação no próprio aplicativo.

R$ 135 por ano. Foi a tarifa de um limite de R$ 5.000 parado, pela alíquota de 0,25% ao mês da Resolução 4.765 do CMN, de 2019.

 
 
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