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Empréstimo do app de corrida cobra 13,97% ao mês

O desconto semanal convertido em juro mensal, o mesmo valor no crédito pessoal do banco e o caminho para quitar antes.

Celular preso no painel de um carro à noite, com recibo de oficina.

Parcela semanal descontada dos ganhos

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Em 2022, quem trabalhava por aplicativo no Brasil recebia em média R$ 2.645 por mês, 5,4% acima dos demais ocupados, segundo a PNAD Contínua do IBGE. O mesmo levantamento do IBGE mediu a jornada desse grupo em 46 horas semanais, contra 39,5 horas de quem trabalhava fora das plataformas.

A renda mensal maior sai de mais horas ao volante, e a sobra no fim do mês continua curta. Para tapar o buraco, os aplicativos de corrida e de entrega passaram a oferecer empréstimo dentro da própria tela, com parcela descontada do repasse semanal.

A cena desta edição usa um personagem montado para os cálculos. Anderson Luiz Ferreira, 34 anos, motorista de aplicativo em Belo Horizonte, precisou de R$ 3.000 para trocar os quatro pneus e a embreagem do carro numa segunda-feira de agosto.

A oferta apareceu no aplicativo antes da primeira corrida do dia. Um botão amarelo dizia “R$ 3.000 liberados agora”, e o texto embaixo explicava o pagamento: 16 descontos semanais de R$ 240, retirados direto dos ganhos, sem boleto e sem consulta ao banco.

Anderson aceitou em dois toques. O dinheiro caiu na conta em menos de uma hora, o carro voltou da oficina na terça e ele rodou a semana inteira.

Na sexta-feira, o extrato de ganhos mostrou uma linha nova: menos R$ 240. A tela trazia o valor da parcela e o número de semanas restantes, mas nenhum juro mensal escrito em percentual.

Dezesseis descontos de R$ 240 somam R$ 3.840. Anderson devolve R$ 840 acima do que recebeu, e o formato semanal disfarça o prazo: 16 semanas soam como pouco, mas cobrem quase quatro meses de trabalho.

Os valores do contrato de Anderson são hipotéticos desta edição, montados no formato que os aplicativos exibem nas próprias ofertas. Logo abaixo, o ranking põe esse empréstimo numa fila com outras quatro saídas para R$ 3.000, ordenadas pelo custo mensal, da mais cara à mais barata.

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I  Ranking do Juro

Cinco saídas para R$ 3.000

Quem precisa de R$ 3.000 com pressa tem pelo menos cinco portas no Brasil, e as cinco cobram preços mensais diferentes. O ranking usa o teto legal onde a lei fixa limite e valores hipotéticos desta edição onde o mercado decide sozinho.

Rotativo do cartão15% ao mês
Empréstimo do app13,97% ao mês
Cheque especial8% ao mês
Crédito pessoal do banco5,5% ao mês
Refinanciamento do carro2,5% ao mês

O rotativo (a parte da fatura que fica para o mês seguinte) lidera a fila. Desde a Lei 14.690, de 2023, juros e encargos do rotativo não podem passar de 100% do valor original da dívida, mas o custo mensal continua o mais alto do ranking.

O cheque especial tem teto próprio. A Resolução 4.765 do Conselho Monetário Nacional, de 2019, limitou o juro dessa linha a 8% ao mês para pessoa física, e o limite vale em qualquer banco.

O crédito pessoal do banco depende do cadastro. Para um motorista autônomo, sem holerite, o banco costuma pedir extrato de recebimentos dos últimos meses, e o valor hipotético desta edição, 5,5% ao mês, fica dentro da faixa que os grandes bancos publicam.

O refinanciamento do carro sai mais barato porque o veículo entra como garantia (o banco pode tomar o carro se a dívida parar). Para quem trabalha com o próprio carro, a garantia pesa: perder o veículo significa perder a renda.

O empréstimo do aplicativo fica em segundo lugar na fila, acima do cheque especial que a lei limita a 8% ao mês.

A posição chama atenção pelo risco envolvido. O aplicativo recebe o dinheiro das corridas antes de repassar ao motorista, então desconta a parcela na fonte, sem depender de boleto pago em dia. Mesmo com essa garantia, o custo da oferta hipotética fica perto do rotativo.

A lei brasileira exige que o preço mensal e anual do empréstimo apareça antes da assinatura. O Código de Defesa do Consumidor lista o que o fornecedor de crédito precisa informar ao cliente, item por item.

“montante dos juros de mora e da taxa efetiva anual de juros”

Congresso Nacional, Código de Defesa do Consumidor, Lei 8.078, artigo 52, 1990

A Resolução 3.517 do Conselho Monetário Nacional, de 2007, acrescentou o Custo Efetivo Total (CET, o preço completo do empréstimo, com juro, tarifa e imposto). O dado precisa constar no contrato, em percentual ao mês e ao ano.

Na oferta do aplicativo, o crédito costuma sair por uma financeira parceira, e o CET fica no contrato em PDF ligado ao botão de aceite. Anderson tocou no botão amarelo e nunca abriu o arquivo.

 
 

II  Juro em reais

R$ 840 em 16 semanas

Dividir R$ 840 por R$ 3.000 dá 28% sobre o valor emprestado. Espalhados por quase quatro meses, os 28% parecem algo como 7% ao mês. A divisão simples engana, porque Anderson devolve parte do dinheiro toda sexta-feira e paga juro sobre um saldo que já encolheu.

O cálculo correto usa o fluxo de parcelas, o mesmo método que as planilhas e as calculadoras financeiras aplicam. Com R$ 3.000 recebidos e 16 pagamentos semanais de R$ 240, o juro embutido chega a 3,06% por semana.

Convertida para meses, a cobrança semanal vira 13,97% ao mês. No ano, o equivalente passa de 380%.

O banco hipotético desta edição cobra 5,5% ao mês no crédito pessoal. Para os mesmos R$ 3.000, em quatro parcelas mensais, cada prestação fica em R$ 855,88, e o total devolvido soma R$ 3.423,53.

Valor recebidoR$ 3.000
Total no appR$ 3.840
Total no bancoR$ 3.423,53
Juro no appR$ 840
Juro no bancoR$ 423,53
DiferençaR$ 416,47

Pelo mesmo dinheiro e quase o mesmo prazo, o aplicativo cobra R$ 416,47 a mais que o crédito pessoal do banco.

O desconto também pesa na semana de trabalho. Se Anderson fatura R$ 1.200 líquidos por semana, valor hipotético já descontada a parte do aplicativo, os R$ 240 levam 20% do que ele leva para casa.

Combustível, manutenção e seguro do carro saem do restante. Numa semana fraca de corridas, a parcela continua igual, e o percentual retido sobe.

O formato do desconto explica por que a oferta fica fácil de aceitar. Sem boleto, sem data de vencimento e sem consulta ao banco, o empréstimo some dentro do extrato de ganhos, e a única linha visível é a parcela.

O banco cobra menos porque tem dados de crédito sobre o cliente e concorre com outros bancos pela mesma operação. O aplicativo concorre com a pressa: a oferta aparece na hora do aperto, e o motorista compara o valor liberado com o pneu careca, nunca com outro empréstimo.

O custo hipotético desta edição muda de oferta para oferta, e algumas plataformas cobram bem menos. O método de conversão vale para qualquer uma: valor recebido, valor da parcela e número de semanas bastam para achar o juro mensal.

 

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III  Porta de Saída

Quitação antecipada com desconto

Anderson descobriu o custo na quarta semana, quando um colega de ponto de embarque mostrou o próprio contrato com o CET escrito. A saída levou quatro passos e um dia útil.

1. Abra o contrato pelo aplicativo e procure o CET mensal e anual. Anote também o saldo devedor do dia.

2. Simule o crédito pessoal no banco onde recebe os repasses e numa cooperativa de crédito. Compare os dois CETs com o do aplicativo.

3. Peça à financeira parceira a quitação antecipada. O artigo 52 do Código de Defesa do Consumidor garante a redução proporcional dos juros quando o cliente paga antes do prazo.

4. Guarde o comprovante e confira o extrato de ganhos da semana seguinte. O desconto de R$ 240 precisa parar.

O artigo 52 do Código de Defesa do Consumidor se aplica ao empréstimo dentro do aplicativo, e a quitação antecipada corta o juro das semanas que faltam.

Depois de quatro descontos, Anderson já tinha pago R$ 960. Faltavam 12 parcelas, R$ 2.880 no total, mas o saldo devedor com o desconto dos juros futuros era R$ 2.379,88.

Ele tomou esse valor no crédito pessoal do banco, a 5,5% ao mês, em três parcelas de R$ 882,11. Com a quitação, o desconto semanal sumiu do extrato na sexta-feira seguinte.

Somados os R$ 960 descontados pelo aplicativo e os R$ 2.646,34 pagos ao banco, os R$ 3.000 custaram R$ 3.606,34. A troca no meio do caminho poupou R$ 233,66 contra o contrato original.

Se a financeira recusar a quitação ou cobrar juro cheio, a reclamação sobe de degrau. Primeiro vem a ouvidoria da financeira, que pela Resolução 4.860 do Conselho Monetário Nacional, de 2020, tem 10 dias úteis para responder. Depois vêm o canal de reclamações do Banco Central e a plataforma Consumidor.gov.br.

A troca exige uma condição: o banco precisa aprovar o crédito. Quem tem o nome negativado ou não comprova renda pode ficar só com a oferta do aplicativo, e nesse caso o caminho mais barato é pedir o menor valor possível pelo menor número de semanas.

Quanto o aplicativo desconta do seu repasse toda semana, e por quantas semanas?

A resposta está no extrato de ganhos. Com o valor recebido, a parcela e o número de semanas, o juro mensal aparece em qualquer calculadora financeira.

R$ 416,47. Foi quanto o empréstimo do aplicativo custou a mais que o crédito pessoal do banco para os mesmos R$ 3.000, pelos valores hipotéticos desta edição.

 
 
Quiz da edição

No ranking de cinco saídas pra R$ 3.000, convertido o desconto semanal em juro mensal, quanto fica o empréstimo do app de corrida que Anderson usou?

A5,5% ao mês, igual ao crédito pessoal do banco
B13,97% ao mês
C8% ao mês, teto do cheque especial
D15% ao mês, igual ao rotativo do cartão

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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