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ED 034
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O carnê de R$ 1.500 que termina em R$ 1.990

Dez parcelas de R$ 199 embutem 5,5% ao mês na prestação, e o preço à vista da mesma vitrine sai por R$ 1.350.

Um carnê de pagamento com dez canhotos sobre o balcão da loja, sob uma faixa de luz vinho.

O carnê aberto sobre o balcão da loja

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O Conselho Monetário Nacional exige, pela Resolução 3.517/2007, que o Custo Efetivo Total de uma operação de crédito ao consumidor seja informado antes da contratação, num percentual anual único que reúne juro, tarifa, seguro e tributo. No mesmo balcão, o carnê da loja continua sendo anunciado pelo tamanho da parcela, em cartaz que traz "10x de R$ 199" e nenhuma taxa impressa ao lado.

A venda a prazo do varejo raramente é feita pelo varejo. Por trás do carnê costuma existir uma financeira coligada, um banco parceiro ou uma securitizadora que compra o recebível da loja com deságio. A loja recebe à vista o valor descontado, e quem paga a diferença ao longo dos dez meses é o cliente, dentro da prestação.

O desenho tem uma consequência que muda a conferência. O juro do carnê não aparece como linha separada no papel, ao contrário do boleto de financiamento, que traz taxa contratada e saldo devedor. Ele está diluído no preço da parcela, e a única forma de enxergar é comparar a soma das prestações com o preço à vista da mesma vitrine.

O comprador que faz a comparação encontra três valores diferentes para o mesmo produto. O preço à vista, o preço parcelado no cartão de crédito e o preço no carnê. A lei permite a diferença entre eles: a Lei 13.455/2017 autorizou a diferenciação de preço por meio e por prazo de pagamento, e a Lei 10.962/2004 obriga a loja a informar cada preço de forma clara.

O que a lei não faz é traduzir a diferença em taxa. Dez parcelas de R$ 199 somam R$ 1.990 e ocupam a mesma linha do orçamento por dez meses, sem que ninguém no balcão diga em voz alta que aquele arranjo cobra 5,5% ao mês sobre um produto de R$ 1.500.

Cinco vírgula cinco por cento ao mês parece pequeno porque vem espremido num número mensal. Em doze meses, a capitalização leva a taxa a 90% ao ano, patamar que vive mais perto do rotativo do cartão do que do crédito consignado.

A edição abre pela ordem das portas, comparando as três formas de pagar o mesmo produto de R$ 1.500 e o que cada uma cobra por adiar o desembolso.

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I  Ranking do Juro

As três portas de uma compra de R$ 1.500

A primeira porta é o preço à vista. Ele costuma vir com desconto no varejo de bairro, porque a loja economiza a taxa da maquininha, o deságio da securitizadora e o risco de inadimplência quando recebe o dinheiro na hora. Um desconto de 10% num produto de R$ 1.500 leva o preço para R$ 1.350.

A segunda porta é o cartão de crédito. Ela se abre em dois modos que costumam ser confundidos: o parcelado da loja, sem juro declarado, e o parcelado do emissor, com juro cobrado na fatura. No primeiro, dez parcelas de R$ 150 somam exatamente R$ 1.500. No segundo, o banco financia a compra e a parcela sobe.

A terceira porta é o carnê. A operação de crédito é contratada com a financeira, o produto sai da loja, e o cliente assume dez canhotos com vencimento mensal. O contrato existe, tem taxa, tem Custo Efetivo Total, e quase nunca é lido no balcão.

A comparação honesta entre as três não usa o valor da parcela. Ela usa a soma paga no fim do prazo contra o preço à vista da mesma loja, porque o preço à vista é o valor real do produto e todo o resto é o preço do tempo.

A ordem das portas, para consulta rápida:

À vista com desconto de 10%desembolso de R$ 1.350
Cartão parcelado sem juro declarado10x de R$ 150, total de R$ 1.500
Cartão parcelado com juro do emissor10x de R$ 169,60, total de R$ 1.696
Carnê da loja10x de R$ 199, total de R$ 1.990

O parcelado sem juro declarado esconde um custo que aparece pela porta dos fundos. Se a loja vende à vista por R$ 1.350 e parcelado por R$ 1.500 em dez vezes, a diferença de R$ 150 é o preço do prazo, o que equivale a perto de 1,8% ao mês para quem tinha o dinheiro e escolheu parcelar.

O cartão com juro do emissor mostra a taxa na fatura, e a transparência muda a conversa. Dez parcelas de R$ 169,60 sobre um valor financiado de R$ 1.500 correspondem a 2,3% ao mês, ou 31,3% ao ano, número que o extrato exibe e que o Custo Efetivo Total da fatura confirma.

O carnê é o caminho mais caro dos quatro arranjos, e a distância não é pequena. Dez parcelas de R$ 199 sobre os mesmos R$ 1.500 correspondem a 5,5% ao mês, ou 90,1% ao ano, e a soma final supera o preço à vista com desconto em R$ 640.

Vale registrar o outro lado da porta. O carnê da loja aceita cliente sem cartão, sem conta em banco e com restrição no cadastro, público que as outras portas simplesmente não atendem. O preço alto do crédito no varejo remunera um risco real de inadimplência, e a análise cadastral rápida do balcão custa dinheiro.

 
 

II  Juro em reais

Dez parcelas de R$ 199 abertas em juro

O caso do dia é uma compra de R$ 1.500 numa loja de bairro que anuncia três preços na mesma etiqueta: R$ 1.350 à vista, 10x de R$ 169,60 no cartão com juro do emissor e 10x de R$ 199 no carnê.

O carnê sai primeiro porque é o mais fácil de somar. Dez vezes R$ 199 dão R$ 1.990. Contra o preço de tabela de R$ 1.500, a diferença é de R$ 490 pelo direito de pagar em dez meses.

A taxa embutida vem da relação entre o valor presente e a série de prestações. Uma dívida de R$ 1.500 quitada em dez parcelas iguais de R$ 199 fecha a conta em 5,5% ao mês, e a capitalização de doze meses leva o custo a 90,1% ao ano.

Preço à vista com descontoR$ 1.350,00
Cartão parcelado, 10x de R$ 169,60R$ 1.696,00
Carnê da loja, 10x de R$ 199,00R$ 1.990,00
Distância entre à vista e carnêR$ 640,00

Contra o preço à vista com desconto, a conta piora. Quem tinha R$ 1.350 no bolso e escolheu o carnê está pagando R$ 1.990 por um produto que sairia por R$ 1.350, o que equivale a 7,8% ao mês de custo do prazo, ou 145% ao ano.

A distância entre a primeira porta e a última é de R$ 640 numa compra de R$ 1.500. O produto é idêntico, a nota fiscal é idêntica, e a diferença inteira mora numa taxa que o cartaz da vitrine não imprime.

"Nas vendas a prazo, o fornecedor deve informar prévia e adequadamente o montante dos juros de mora e da taxa efetiva anual de juros."

Código de Defesa do Consumidor, artigo 52, 1990

O cartão parcelado do emissor ocupa o meio do ranking e tem uma vantagem operacional. Dez parcelas de R$ 169,60 somam R$ 1.696, custam R$ 294 a menos que o carnê, e vêm dentro de uma fatura que exibe taxa mensal, taxa anual e Custo Efetivo Total por determinação do Banco Central.

A comparação por parcela engana justamente porque as parcelas são parecidas. R$ 199 e R$ 169,60 diferem em R$ 29,40 por mês, valor que soa desprezível na hora da compra. Multiplicado por dez meses, o desprezível vira R$ 294, quase 20% do preço do produto.

Existe ainda o efeito de repetição, que só aparece em quem compra no carnê como hábito. Três compras de R$ 1.500 por ano nesse formato somam R$ 5.970 pagos por R$ 4.050 de mercadoria a preço à vista, e a diferença anual de R$ 1.920 sai do orçamento sem nunca aparecer como despesa financeira na planilha de ninguém.

O limite honesto da conta merece registro. Os valores usados aqui são um exemplo aritmético construído para a comparação, e não a taxa de nenhuma loja ou financeira específica. O contrato assinado no balcão traz o Custo Efetivo Total do caso concreto, e ele pode ser maior ou menor que os 5,5% ao mês deste exercício.

 

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III  Porta de Saída

Cinco contas no balcão, na ordem

A comparação se resolve com cinco movimentos, feitos na ordem, com a calculadora do celular aberta e o vendedor esperando.

1. Pergunte o preço à vista com pagamento em dinheiro ou débito e anote o número. Ele é a base de tudo, e a Lei 10.962/2004 obriga a loja a informá-lo de forma clara junto com o preço a prazo.

2. Multiplique o valor da parcela do carnê pelo número de parcelas e compare com o preço à vista anotado. A diferença em reais é o custo do prazo, e ela costuma ser maior do que a intuição da parcela sugere.

3. Exija o Custo Efetivo Total em percentual anual, escrito no contrato ou na proposta. A Resolução 3.517/2007 do Conselho Monetário Nacional torna a informação obrigatória antes da contratação, e a recusa em fornecer já é resposta suficiente sobre o negócio.

4. Confira se o carnê embute tarifa de cadastro, seguro prestamista ou proteção financeira. Esses acréscimos entram na parcela sem virar preço do produto, costumam ser opcionais por regra do Banco Central, e o cancelamento do seguro pode ser pedido no ato.

5. Compare o custo do carnê com o crédito que você já tem contratado. Cartão parcelado do emissor, crédito consignado e empréstimo pessoal do seu banco costumam sair abaixo de 5,5% ao mês, e a taxa aparece por escrito no aplicativo em duas telas.

"Qual foi a última vez que você somou as parcelas de um carnê antes de assinar o canhoto?"

Um detalhe fecha o assunto do prazo. A comparação continua útil depois da compra, porque a portabilidade de crédito prevista na Resolução 4.292/2013 do Conselho Monetário Nacional permite transferir a dívida para uma instituição que cobre menos, e o carnê já assinado pode ser quitado antecipadamente com redução proporcional dos juros, direito garantido pelo artigo 52, parágrafo 2º, do Código de Defesa do Consumidor. R$ 640 sobre uma compra de R$ 1.500. Foi a distância entre as dez parcelas de R$ 199 do carnê e o preço à vista de R$ 1.350 na mesma vitrine.

 
 

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Quiz da edição

Na compra de R$ 1.500 usada como exemplo na edição, qual é a diferença entre a soma das dez parcelas do carnê (R$ 199 cada) e o preço à vista com desconto da mesma loja?

AR$ 490
BR$ 294
CR$ 640
DR$ 150

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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