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ED 053
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O mesmo CPF com 4 notas de crédito

Serasa, SPC, Boa Vista e Quod medem o mesmo CPF de 0 a 1.000 e chegam a notas diferentes. A taxa sai da nota que o banco escolhe ler.

Quatro cartões em branco enfileirados sobre um documento.

Quatro notas para o mesmo CPF

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A Lei Complementar 166, de 2019, pôs o histórico de pagamento de quase todo brasileiro no Cadastro Positivo (o registro das contas pagas em dia, e não só das atrasadas) e entregou esse mesmo histórico a 4 gestoras autorizadas pelo Banco Central. As 4 medem o CPF na mesma escala, de 0 a 1.000, e devolvem notas diferentes, como mostram os aplicativos da Serasa, do SPC Brasil, da Boa Vista e da Quod.

A lei deu a mesma matéria-prima às quatro. O resultado sai diferente nas quatro telas.

Quem abre os 4 aplicativos numa tarde encontra algo assim, num exemplo montado para esta edição: 812 num, 705 no segundo, 640 no terceiro e 590 no último. Nenhuma das notas está errada.

O score (a nota de crédito, que estima a chance de o CPF pagar as contas em dia nos meses seguintes) é uma conta própria de cada birô (a empresa que guarda e vende informação de crédito). Cada um soma o Cadastro Positivo com a base que construiu sozinho ao longo de décadas.

E as bases nasceram em lugares diferentes. Uma veio dos bancos, outra do comércio de rua, outra de uma associação comercial paulista, e a mais nova foi montada por 5 grandes bancos em 2017.

A negativação (o registro de uma dívida atrasada) também não passa pelas quatro. Quem manda o nome do devedor para o cadastro é o credor, e ele escolhe o birô com que tem contrato.

Por esse motivo, um carnê atrasado numa loja de móveis pode derrubar a nota num birô e passar em branco no outro. A diferença entre as telas tem origem, e a origem tem nome.

Para quem vai pedir empréstimo, a pergunta prática é uma só: qual dessas notas o banco abre quando define a taxa. A proposta não diz, e o gerente raramente sabe responder.

A seção I põe os 4 birôs em fila pela base que cada um enxerga e mostra onde o banco vai buscar a nota.

Continue lendo ↓

 
 

I  Ranking do Juro

Quatro bases, quatro fotos do mesmo CPF

A Serasa foi criada em 1968 por um grupo de bancos e pertence à britânica Experian desde 2007. Nasceu para os bancos trocarem informação sobre quem devia a quem, e essa origem ainda pesa na base dela.

O SPC Brasil pertence à CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, a entidade que reúne as câmaras de lojistas do país). A base dele vem do crediário, do carnê e da venda a prazo do comércio.

A Boa Vista herdou o SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito) da Associação Comercial de São Paulo e foi comprada pela americana Equifax em 2023. A Quod foi fundada em 2017 por Bradesco, Itaú, Santander, Banco do Brasil e Caixa.

Em fila, pelo lugar de onde cada base veio:

Serasa Experianbancos, desde 1968
SPC Brasilcomércio lojista
Boa VistaAssociação Comercial de São Paulo
Quod5 grandes bancos, desde 2017

Cada birô vê melhor o que nasceu dentro dele. Um CPF que compra muito no crediário e quase não usa banco aparece mais inteiro no SPC. Quem vive de cartão e financiamento bancário deixa mais rastro na Serasa e na Quod.

Somado a essa base própria, o Cadastro Positivo entra nas quatro. Contas de luz, água, telefone, parcelas e faturas pagas em dia chegam a todas as gestoras, mas cada uma pesa esses pagamentos com um modelo estatístico próprio, que nenhuma publica inteiro.

A nota que decide a taxa é a do birô que o banco contratou, e não a mais alta das quatro telas.

O banco, por sua vez, raramente olha uma nota só. Ele cruza o score de um ou mais birôs com dois dados que só ele tem.

O primeiro é o histórico interno: como o cliente movimenta a conta, se o salário cai ali, como paga o cartão da casa. O segundo é o SCR (Sistema de Informações de Crédito do Banco Central, o cadastro que reúne as dívidas de cada CPF com bancos e financeiras).

Por esse caminho, a nota do aplicativo vira só um dos ingredientes. Um cliente com 812 na Serasa e dívida alta no SCR pode receber taxa pior que um vizinho com 640 e dívida baixa.

Qual birô cada banco contrata é informação comercial, e nenhum banco a publica. Há, porém, um jeito de descobrir pelo lado do cliente, e a seção III mostra o caminho.

 
 

II  Juro em reais

Um ponto de taxa em R$ 10 mil

A diferença entre as quatro notas só importa quando vira taxa. E a taxa é definida por faixa: o banco agrupa os clientes por risco e cobra de cada faixa um juro diferente.

O exemplo desta edição usa números redondos. Um cliente pede R$ 10.000 de crédito pessoal em 24 parcelas, na tabela Price (o sistema em que todas as prestações têm o mesmo valor).

Se o banco lê a nota mais alta do cliente e o encaixa na faixa de 2,5% ao mês, a prestação fica em R$ 559,13. Nas 24 parcelas, ele paga R$ 13.419,08.

Se o mesmo banco lê a nota mais baixa e o põe na faixa de 3,5% ao mês, a prestação sobe para R$ 622,73. O total vai a R$ 14.945,48.

A distância entre as duas faixas é de R$ 63,60 por mês. Em 24 parcelas, soma R$ 1.526,40, pagos pelo mesmo CPF, com a mesma renda e as mesmas contas.

"Lembre-se de que crédito é dinheiro."

Benjamin Franklin, Conselhos a um Jovem Comerciante, 1748

Franklin escreveu a frase para um aprendiz que achava o nome limpo um detalhe. Na conta acima, o crédito tem preço exato: cada ponto percentual de faixa custa R$ 63,60 por mês ao cliente.

Um ponto de taxa ao mês, em R$ 10 mil e 24 parcelas, custa R$ 1.526,40 no total pago.

A faixa depende da nota que o banco lê, e a nota baixa costuma ter uma causa localizável. Uma negativação antiga que já foi paga e não saiu do cadastro, um endereço desatualizado ou um CPF sem Cadastro Positivo ativo derrubam a nota num birô e não nos outros.

A negativação paga tem prazo para sair. O Código de Defesa do Consumidor, de 1990, manda o credor pedir a baixa do registro depois da quitação, e a Súmula 548 do Superior Tribunal de Justiça, de 2015, fixou 5 dias úteis para esse pedido.

Corrigir o dado errado no birô que puxa a nota para baixo pode mudar a faixa. E mudar a faixa vale os R$ 63,60 por mês do exemplo.

Há um limite a registrar. Nenhum aplicativo diz em qual faixa o banco vai encaixar o cliente, porque o corte de cada faixa é regra interna do banco. A nota alta aumenta a chance da faixa boa, sem garantia.

 

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III  Porta de Saída

As 4 notas na tela, sem pagar

A Lei 12.414, de 2011, que criou o Cadastro Positivo, garante ao consumidor acesso gratuito às informações que as gestoras guardam sobre ele, incluindo as notas de crédito. Ver as quatro não custa nada.

1. Entre no site oficial ou no aplicativo de cada birô: Serasa, SPC Brasil, Boa Vista e Quod. O cadastro pede CPF, email e celular, e a nota aparece na primeira tela.

2. Abra o Registrato no site do Banco Central, com a conta gov.br. Ele mostra, sem custo, as dívidas do seu CPF no SCR, a mesma lista que o banco consulta.

3. Procure, em cada aplicativo, a lista de consultas feitas ao seu CPF. Quando um banco puxa a sua nota num birô, o nome dele fica registrado ali, e é assim que se descobre qual birô aquele banco contrata.

4. Compare as quatro notas e leia os detalhes da menor. Dívida que você já pagou, endereço antigo ou Cadastro Positivo desativado são as causas mais comuns de uma nota destoar das outras.

Se encontrar um dado errado, conteste pelo próprio aplicativo do birô. A Lei 12.414 dá ao consumidor o direito de pedir a correção, e o birô tem de responder.

Se a correção não sair, a reclamação vai ao consumidor.gov.br e ao Banco Central, pelo canal Registre sua reclamação.

Nota de crédito que pede pagamento para aparecer na tela é produto extra, e a lei já garante a nota de graça.

Os birôs vendem relatórios pagos, serviços de monitoramento e planos com alerta. Para saber a nota e conferir o cadastro, nenhum deles é necessário.

Com o nome do birô que o banco consultou em mãos, o cliente sabe qual das quatro telas decide a taxa dele. Antes de pedir o próximo empréstimo, é essa nota que vale limpar.

Qual das suas quatro notas o seu banco abriu da última vez que você pediu crédito?

A resposta está na lista de consultas ao CPF, dentro do aplicativo de cada birô, com o nome do banco e a data da consulta.

R$ 0. Foi quanto custou ver as 4 notas de crédito do mesmo CPF, pela garantia de acesso gratuito da Lei 12.414, de 2011.

 
 
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AA Associação Comercial de São Paulo
BBradesco, Itaú, Santander, Banco do Brasil e Caixa
CA CNDL, confederação dos lojistas
DO grupo britânico Experian

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