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ED 029
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O rotativo de R$ 2.000 não pode cobrar mais que R$ 4.000

A Lei 14.690 limita juros e encargos do cartão ao valor original da dívida desde janeiro de 2024, e o teto aparece na fatura.

Uma fatura de cartão de crédito dobrada com a linha dos encargos grifada a caneta e um cartão apoiado sobre a folha, sob uma faixa de luz vinho.

A fatura com a linha do teto marcada

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A Lei 14.690, sancionada em 3 de outubro de 2023, proíbe que os juros e encargos do rotativo do cartão passem do valor original da dívida, e a trava vale para toda fatura emitida desde 3 de janeiro de 2024. No mesmo mercado, a taxa média do rotativo para pessoa física passou de 430% ao ano em 2024, segundo as Estatísticas Monetárias e de Crédito do Banco Central. As duas frases descrevem a mesma fatura que chega todo mês.

O texto que cria a trava tem uma frase só. O total cobrado a título de juros e encargos financeiros sobre o saldo do rotativo, do parcelamento da fatura e dos serviços associados não pode exceder o valor original da dívida. Quem deixou R$ 2.000 sem pagar tem teto de R$ 4.000 no montante final cobrado: os R$ 2.000 que gastou mais R$ 2.000 de encargos, e nada além.

A trava não mexe na taxa. O banco continua livre para cobrar 15% ao mês, e continua cobrando. O que a lei faz é interromper a bola de neve num ponto fixo, então a dívida para de crescer quando os encargos acumulados alcançam o valor gasto, mesmo que o titular siga sem pagar por mais um ano.

A regra nasceu no artigo 28 da mesma lei que criou o Desenrola Brasil. O Conselho Monetário Nacional deu prazo para as instituições apresentarem uma proposta própria de limite, a proposta não veio no formato pedido, e o teto legal entrou em vigor noventa dias depois da sanção, alcançando todos os contratos de cartão em aberto no país.

O titular não vê a trava porque a fatura não a imprime. O documento mostra o valor total, a data de vencimento e o pagamento mínimo em destaque, e joga os encargos para um bloco de letra pequena onde cada linha aparece sozinha, sem soma acumulada. Descobrir se o teto já foi atingido exige juntar as faturas dos meses anteriores e somar à mão.

Pegamos R$ 2.000 de fatura não paga e cotamos a mesma dívida em seis linhas de crédito diferentes ao longo de doze meses, para medir onde a trava legal morde e onde ela não existe.

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I  Ranking do Juro

Duas linhas travam em R$ 4.000, as outras quatro não

Todas as linhas abaixo partem da mesma situação: R$ 2.000 de fatura não paga, doze meses de rolagem sem nenhuma amortização, e a taxa mensal praticada na média de cada produto. Muda apenas a linha de crédito que carrega a dívida, e muda se existe teto legal sobre ela.

Duas das seis linhas param de crescer em R$ 4.000 por força da Lei 14.690. As outras quatro seguem compondo juro sobre juro até o titular pagar.

Ordenado do custo mais barato para o mais caro, com o montante final depois de doze meses e a taxa mensal de cada um, na simulação que rodamos com juro composto:

Crédito consignado, 1,66% ao mêsmontante R$ 2.436,86 · encargos R$ 436,86
Crédito pessoal com garantia, 2,49% ao mêsmontante R$ 2.686,63 · encargos R$ 686,63
Crédito pessoal sem garantia, 5,90% ao mêsmontante R$ 3.979,07 · encargos R$ 1.979,07
Parcelamento da fatura, 8,50% ao mêsteto trava em R$ 4.000,00 · sem trava R$ 5.323,37
Cheque especial, 7,90% ao mêsmontante R$ 4.980,66 · sem teto legal
Rotativo do cartão, 15,00% ao mêsteto trava em R$ 4.000,00 · sem trava R$ 10.700,50

A leitura que salta do ranking é o cheque especial. Ele cobra menos que o rotativo por mês e termina o ano custando mais caro que ele, porque a Lei 14.690 alcança o cartão e não alcança a conta corrente. Quem migra a dívida do cartão para o limite da conta troca uma dívida com teto por uma dívida sem teto.

O rotativo puro é a única linha da tabela em que a trava corta mais da metade do custo. Sem ela, R$ 2.000 virariam R$ 10.700,50 em doze meses. Com ela, o montante final para em R$ 4.000,00, e os R$ 6.700,50 restantes simplesmente não podem ser cobrados.

A comparação também mostra o tamanho do salto entre as faixas. Sair do consignado para o rotativo multiplica os encargos de R$ 436,86 para R$ 2.000,00 sobre a mesma dívida de R$ 2.000, no mesmo prazo, com o mesmo pagador. O que muda é o produto, não o risco de quem assina.

Um aviso de leitura antes de seguir. Cada instituição publica taxa própria, o rotativo médio varia com o perfil do titular e a trava legal alcança juros, encargos financeiros e serviços associados, não multa e mora do atraso, que seguem regra separada de 2% mais 1% ao mês. A mecânica é que não muda: no cartão existe um ponto de parada, no cheque especial não existe.

 
 

II  Juro em reais

R$ 2.000 batem no teto no quinto mês

O caso do dia é a fatura mais comum do país, aquela de R$ 2.000 que o titular não conseguiu pagar e deixou rolando no rotativo a 15% ao mês. A conta começa modesta e a trava aparece mais rápido do que quase todo mundo imagina.

Cada mês multiplica o saldo por 1,15, então os encargos crescem sobre encargos já cobrados. O primeiro mês parece barato, o quinto já encosta no limite legal, e a partir dali qualquer valor cobrado acima de R$ 4.000,00 a título de juros e encargos é indevido.

A escada mês a mês, com o saldo devedor e os encargos acumulados, fica assim:

Mês 1saldo R$ 2.300,00 · encargos R$ 300,00
Mês 2saldo R$ 2.645,00 · encargos R$ 645,00
Mês 3saldo R$ 3.041,75 · encargos R$ 1.041,75
Mês 4saldo R$ 3.498,01 · encargos R$ 1.498,01
Mês 5, cálculo daria R$ 4.022,71trava legal segura em R$ 4.000,00
Mês 12 sem a travaR$ 10.700,50 · encargos R$ 8.700,50
Mês 12 com a travaR$ 4.000,00 · encargos R$ 2.000,00

O par de linhas que decide a conversa com o banco é o mês 12 de cada lado. Sem a Lei 14.690, a dívida de R$ 2.000 chegaria ao aniversário custando R$ 10.700,50. Com ela, a mesma dívida, no mesmo cartão, com a mesma taxa, para em R$ 4.000,00.

A trava é atingida entre o quarto e o quinto mês de rolagem, e depois disso o saldo devedor congela em R$ 4.000,00. Sete meses de rotativo passam a não custar nada a mais que o quinto.

O congelamento tem um efeito colateral que muda a ordem de quem paga o quê. Quando o titular carrega dívida de cartão e dívida de cheque especial ao mesmo tempo, e o cartão já bateu o teto, cada real disponível rende mais abatendo a linha que continua crescendo. O cartão travado espera parado; o cheque especial não espera.

"O total cobrado a título de juros e encargos financeiros no saldo devedor do crédito rotativo e do parcelamento da fatura do cartão de crédito e dos serviços associados não poderá exceder o valor original da dívida."

Lei nº 14.690, art. 28, 2023

Existe uma saída que o próprio banco é obrigado a oferecer antes disso. O rotativo dura no máximo trinta dias por determinação do Conselho Monetário Nacional, e no vencimento seguinte a instituição precisa converter o saldo em parcelamento da fatura, com taxa menor e prazo definido. O parcelamento também está sob o mesmo teto de 100%, então aceitar a conversão nunca piora o limite.

O teto não é benefício automático que dispensa conferência. Ele cria um número de referência que o titular calcula sozinho em cinco segundos: pegue o valor da compra que ficou sem pagamento, multiplique por dois, e nenhum montante de juros e encargos pode passar disso enquanto aquela dívida estiver viva no cartão.

 

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III  Porta de Saída

Como conferir o teto na fatura em cinco movimentos

A conferência se resolve com cinco movimentos objetivos, feitos na ordem, com as faturas em PDF que o aplicativo do banco entrega sem pedir nada em troca.

1. Localize a fatura em que a dívida nasceu, aquela em que o pagamento ficou abaixo do total, e anote o valor original que deixou de ser pago. Esse número é a base de tudo, e o teto legal é o dobro dele.

2. Baixe as faturas de todos os meses seguintes e some as linhas de encargos: juros do rotativo, juros do parcelamento da fatura, IOF e tarifas de serviços associados. Multa e mora de atraso ficam fora dessa soma, porque seguem regra própria.

3. Compare a soma dos encargos com o valor original anotado no primeiro movimento. Encargos acumulados iguais ao valor original significam que a trava foi atingida e a dívida não pode mais crescer por juro.

4. Abra reclamação escrita no canal de atendimento do emissor se a soma passou do valor original, citando o artigo 28 da Lei 14.690, de 2023, e peça o estorno do excedente na fatura seguinte. Guarde o número do protocolo e o PDF de cada fatura usada na conta.

5. Registre no Banco Central pelo sistema de atendimento ao cidadão caso o emissor negue ou não responda em dez dias úteis. A regra é norma federal, e o supervisor do sistema financeiro é quem fiscaliza o cumprimento dela.

"Quantas faturas seguidas você deixou rolar sem nunca somar quanto já pagou de encargo?"

Existe caminho para quem descobre a trava depois de já ter pago demais. A cobrança acima do teto é indevida e a devolução pode ser pedida sobre faturas antigas, dentro do prazo de prescrição de cinco anos que o Código de Defesa do Consumidor fixa para dívida de consumo. R$ 2.000,00 de encargo máximo sobre R$ 2.000,00 de fatura. Foi onde o artigo 28 da Lei 14.690, de 2023, parou a conta.

 
 

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Quiz da edição

Na simulação com R$ 2.000 de dívida rolando por doze meses, qual das seis linhas de crédito NÃO tem teto legal e termina o ano custando mais caro que o rotativo do cartão?

AParcelamento da fatura
BCrédito consignado
CCheque especial
DCrédito pessoal sem garantia

Resultado da última edição: 0% acertaram.

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